quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

VIVEMOS SONHANDO...

 VIVEMOS SONHANDO...

Viver o dia-a-dia na sociedade implica lidarmos com muito stress, muitas contrariedades, muitos silêncios a que nos obrigamos, porque as regras do bom viver assim o exigem. Contudo, a nossa mente não quer saber das regras para nada!  Para se adaptar, a mente vai criar uma outra dimensão, o sonho, para se libertar dos problemas criados durante o dia (estado de vigília) e, por outro lado, para se compensar dos desejos que não foram satisfeitos.


O sono R.E.M.
Enquanto dormimos, existe uma fase do sono que se chama “sono R.E.M.” e que é o período durante o qual ocorrem os sonhos. Nesta fase do sono, as nossas pupilas mexem-se de forma rápida e a atividade do cérebro é semelhante àquela que ocorre durante as horas em que se está acordado. Sonhamos com a energia igual à que temos se vivêssemos a experiência durante o dia. Por esse motivo, o nosso cérebro durante esta fase do sono vai bloquear os nossos nervos motores, para que o corpo não se movimente de acordo com o sonho da pessoa, ficando o corpo num estado chamado de “paralisia do sono”.
Durante uma noite de sono, uma pessoa tem normalmente cerca de 4 ou 5 períodos de REM, que são bem curtos no começo da noite e mais longos no final. Muitas pessoas podem acordar por um curto período de tempo no final de um sono do tipo REM. 


O tempo total de sono em REM ronda os 90 a 120 minutos por noite para adultos. As crianças têm maior percentagem deste tipo de sono (perto de 80%) durante a noite e as pessoas mais idosos têm a menor percentagem (cerca de 10%).

O tempo é diluído nos nossos sonhos!
Vivemos irremediavelmente presos a um passar do tempo que define a vida de cada um de nós por um princípio, etapas e fim, e que opera independente da nossa atenção ou da nossa consciência.
A dinâmica dos dias mostra que o nosso tempo de vida parece ser feito de uma sucessão de tempos, ligados por emoções e sentimentos comuns: a alegria ou a tristeza, o prazer e o desprazer, a felicidade e a infelicidade são comuns aos estádios da vida. A alegria da criança alegre é igual à alegria sentida pelo adulto ou pelo idoso. O que muda, afinal? As marcas do tempo: os motivos da alegria e a expressão dessa mesma alegria.  Ora, no sonho, vamos encontrar a nossa vida, retalhos do nosso dia-a-dia, sem qualquer tempo a enquadrá-lo!


O que somos de dia voltamos a ser no sonho!
De uma certa forma, somos o que somos de dia. Mas, se durante o dia, a nossa consciência, bem “acordada” e atenta, precisa do relógio para melhor regular todas as atividades impostas ao quotidiano, durante a noite sonhamos o dia ao sabor de outro tempo e com outros materiais que estruturam a nossa mente. No sonho, mergulhamos nos dias sem relógios, farol, limites ou passaporte para a nossa consciência. Sonhamos sem controle algum sobre o sonho!

O sonho reflete sempre os nossos desejos, as nossas experiências, os nossos medos, os amores e desamores, as nossas forças e fraquezas sem sobre ele conseguirmos exercer qualquer interferência.

No sonho, ao contrário do tempo em que estamos acordados,  não existe tempo. Quantas vezes sonhamos com pedaços de histórias em que nós entramos, fazemos algo e depois a ação passa inexplicavelmente para outra cena em que tudo é diferente, em que podemos lá estar ou não, sem qualquer sentido com a história anterior? Apagamos o tempo nas histórias que sonhamos e muitas vezes não conseguimos explicar como acabam as pequenas cenas e arrancam outras que constituem o sonho que recordamos.


Nós estamos sempre lá, no nosso sonho. Podemos ser nós próprios, ou a vizinha com quem sonhamos, ou a prima, ou a irmã ou a criança que não sabemos identificar. Somos nós que produzimos o nosso sonho e é por nossa causa que o produzimos. Por esse motivo, nós estamos lá, nem que estejamos mascarados por outro qualquer personagem que criámos.


Os dias habitam na noite através do sonho, enquanto dormimos. 
Quando estamos acordados, os nossos impulsos e desejos inconscientes são suprimidos pela Censura (o Superego), uma espécie de guardião que trabalha arduamente durante a nossa vigília com “rolhas” para os nossos impulsos mais profundos, procurando manter a nossa estrutura psíquica em equilíbrio.
Contudo, este equilíbrio é instável, vive de desarmonias, porquanto somos “obrigados” a fazer coisas que gostamos, a não fazer coisas que desejamos porque “parece mal”, vivemos contrariados sem deixar que os nossos sentimentos verdadeiros e profundos venham à superfície. Viver o dia é diferente de sonhar na noite. Porque no sonho somos o que quisermos, sem muitas vezes entendermos o significado dos nossos sonhos, que tão bizarros e estranhos nos parecem!
A angústia, a falta de amor , o medo, as contrariedades ou as nossas perdas são jogados  no nosso sonho, sem que deles nos apercebamos.

Conta-me um pouco dos teus sonhos, e eu te direi o que tens dentro de ti!
Viver em sociedade pode ser cruel para a nossa mente mais profunda, que não reconhece as regras e os deveres a que nos temos que sujeitar. O sonho é a forma mais pura de enfrentarmos os desejos da nossa mente sem qualquer censura. Necessitamos sonhar para libertarmos todas as tensões que o dia-a-dia exerce sobre a nossa mente. Se não sonhássemos, enlouqueceríamos rapidamente!
O sonho é assim uma espécie de “mente em férias”,  é não ter horários a cumprir, não ter as responsabilidades quotidianas da atividade profissional, não ter condicionalismos a prender a nossa liberdade. Estar de férias é ter o prazer de fazer o que gostamos e o que desejamos fazer. Quando sonhamos, embarcamos para um recreio de férias!

No sonho não existe moralidade!
Para Freud, o sonho revela os impulsos involuntários que são reprimidos durante o estado de vigília.
No sonho podemos roubar, assassinar, mentir, bater, etc., ou seja, muitas vezes vemo-nos a fazer coisas num sonho que nos pode provocar o espanto, a estranheza ou o repúdio ao lembrarmo-nos do que sonhámos.
 Os limites da moralidade são ultrapassados quando estamos a sonhar. Segundo Freud, quando sonhamos, nós sucumbimos às nossas pulsões ou instintos mais profundos sem que a nossa vontade possa exercer sobre algum controle.

Não sonhamos o que queremos!
Sonhar é muito mais do que um processo automático de fenómenos psíquicos. Imaginemos que o leitor sonhou com ladrões e que estava apavorado porque não conseguia libertar-se deles, nem tão pouco chamar a polícia. Ora, os  sonhos revelam os nossos sentimentos reais, como por exemplo, o medo (real) que sentia, porque na vida real tem medo de ladrões. No entanto, os “ladrões” do seu sonho são  ilusórios.

É a experiência acumulada enquanto estamos acordados que vai ser a matéria que é apresentada no sonho.
Os conteúdos do sonho são pois reflexos das nossas experiências do dia-a-dia, daquilo que  ocupa a nossa mente acordada, e daquilo que é objecto das nossas reflexões diurnas.
No entanto, na análise de um sonho podem encontrar-se  elementos aparentemente acessórios masque  podem ser eles mesmos a causa do sonho. Por exemplo, eu sonhei que os ladrões estavam a assaltar a livraria onde eu me encontrava a comprar um livro.
A minha mente pode ter ido colocar os ladrões na livraria (na história do sonho) e essa livraria pode ser um elemento importante na minha vida, como por exemplo, ter sido numa livraria que eu encontrei recentemente um amigo de infância.

O sonho vai, assim, juntar elementos que aparentemente possam não ter nada entre si, mas um analista pode nele encontrar muitos elos de ligação, que farão sentido para a pessoa que sonhou.

Porque sonhamos?
Vários autores defendem que o sonho vem colocar na superfície situações que ficam “apagadas” ou “esquecidas” provenientes das experiências vividas durante o dia.   Começamos a sonhar com coisas só quando elas ficam por resolver, podendo apresentar-se no sonho mascaradas de outras coisas. Por exemplo, os recém casados, apaixonados, normalmente não sonham com questões de amor em que o próprio casal está envolvido. Se sonham com o amor é para serem infiéis com alguma pessoa de quem, aparentemente, nem gostam...
O sonho pode representar  uma realização de um desejo evidente ou mascarado ou escondido. 

O desejo pode ter sido despertado durante o dia e não poder ter sido satisfeito por motivos exteriores ao indivíduo, passando-se, assim,  para a noite sonhada a realização desse desejo
O desejo pode tainda ser oriundo da vigília, e surgir no sonho como um elemento que provém dos nossos impulsos recalcados.

Quando nos esquecemos do sonho
Quando o sonhador relata o seu sonho, depara-se frequentemente com dúvidas, fragmentos de sonho bizarros e sem nexo, e à medida que o tempo passa após o acordar, esse sonho vai sendo cada vez mais esquecido.
Os elementos mais débeis e vagos do sonho, muitas vezes fragmentos sem ligação à narrativa,  podem representar elementos indesejáveis que emergiram no sonho e foram abafados pela mente do sonhador. Para Freud, estes elementos que aparentemente se encontram vazios de significado na lógica do sonho, podem ser  derivados diretos de pensamentos “proibidos”. O esquecimento dos sonhos é uma manifestação da censura, a mesma censura que opera enquanto estamos acordados, a viver no nosso quotidiano.