Viver o
dia-a-dia na sociedade implica lidarmos com muito stress, muitas
contrariedades, muitos silêncios a que nos obrigamos, porque as regras do bom
viver assim o exigem. Contudo, a nossa mente não quer saber das regras para
nada! Para se adaptar, a mente vai criar
uma outra dimensão, o sonho, para se libertar dos problemas criados durante o
dia (estado de vigília) e, por outro lado, para se compensar dos desejos que
não foram satisfeitos.
O sono R.E.M.
Enquanto dormimos, existe uma fase
do sono que se chama “sono R.E.M.” e que é o período durante o qual ocorrem os
sonhos. Nesta fase do sono, as nossas pupilas mexem-se de forma rápida e a
atividade do cérebro é semelhante àquela que ocorre durante as horas em que se
está acordado. Sonhamos com a energia igual à que temos se vivêssemos a
experiência durante o dia. Por esse motivo, o nosso cérebro durante esta fase
do sono vai bloquear os nossos nervos motores, para que o corpo não se
movimente de acordo com o sonho da pessoa, ficando o corpo num estado chamado
de “paralisia do sono”.
Durante uma noite de sono, uma
pessoa tem normalmente cerca de 4 ou 5 períodos de REM, que são bem curtos no
começo da noite e mais longos no final. Muitas pessoas podem acordar por um
curto período de tempo no final de um sono do tipo REM.
O tempo total de sono em
REM ronda os 90 a 120 minutos por noite para adultos. As crianças têm maior
percentagem deste tipo de sono (perto de 80%) durante a noite e as pessoas mais
idosos têm a menor percentagem (cerca de 10%).
O tempo é diluído nos nossos sonhos!
Vivemos
irremediavelmente presos a um passar do tempo que define a vida de cada um de
nós por um princípio, etapas e fim, e que opera independente da nossa atenção
ou da nossa consciência.
A dinâmica dos
dias mostra que o nosso tempo de vida parece ser feito de uma sucessão de
tempos, ligados por emoções e sentimentos comuns: a alegria ou a tristeza, o
prazer e o desprazer, a felicidade e a infelicidade são comuns aos estádios da
vida. A alegria da criança alegre é igual à alegria sentida pelo adulto ou pelo
idoso. O que muda, afinal? As marcas do tempo: os motivos da alegria e a
expressão dessa mesma alegria. Ora, no
sonho, vamos encontrar a nossa vida, retalhos do nosso dia-a-dia, sem qualquer
tempo a enquadrá-lo!
O que somos de dia voltamos a ser no sonho!
De uma certa
forma, somos o que somos de dia. Mas, se durante o dia, a nossa consciência,
bem “acordada” e atenta, precisa do relógio para melhor regular todas as
atividades impostas ao quotidiano, durante a noite sonhamos o dia ao sabor de
outro tempo e com outros materiais que estruturam a nossa mente. No sonho,
mergulhamos nos dias sem relógios, farol, limites ou passaporte para a nossa
consciência. Sonhamos sem controle algum sobre o sonho!
O
sonho reflete sempre os nossos desejos, as nossas experiências, os nossos
medos, os amores e desamores, as nossas forças e fraquezas sem sobre ele conseguirmos
exercer qualquer interferência.
No sonho, ao contrário do tempo em que estamos
acordados, não existe tempo. Quantas
vezes sonhamos com pedaços de histórias em que nós entramos, fazemos algo e
depois a ação passa inexplicavelmente para outra cena em que tudo é diferente,
em que podemos lá estar ou não, sem qualquer sentido com a história anterior?
Apagamos o tempo nas histórias que sonhamos e muitas vezes não conseguimos
explicar como acabam as pequenas cenas e arrancam outras que constituem o sonho
que recordamos.
Nós estamos sempre lá, no nosso sonho. Podemos
ser nós próprios, ou a vizinha com quem sonhamos, ou a prima, ou a irmã ou a
criança que não sabemos identificar. Somos nós que produzimos o nosso sonho e é
por nossa causa que o produzimos. Por esse motivo, nós estamos lá, nem que
estejamos mascarados por outro qualquer personagem que criámos.
Os dias habitam na noite através do sonho, enquanto dormimos.
Quando estamos acordados, os nossos impulsos e desejos inconscientes são
suprimidos pela Censura (o Superego),
uma espécie de guardião que trabalha arduamente durante a nossa vigília com
“rolhas” para os nossos impulsos mais profundos, procurando manter a nossa
estrutura psíquica em equilíbrio.
Contudo, este equilíbrio é instável, vive de desarmonias, porquanto somos
“obrigados” a fazer coisas que gostamos, a não fazer coisas que desejamos
porque “parece mal”, vivemos contrariados sem deixar que os nossos sentimentos
verdadeiros e profundos venham à superfície. Viver o dia é diferente de sonhar
na noite. Porque no sonho somos o que quisermos, sem muitas vezes entendermos o
significado dos nossos sonhos, que tão bizarros e estranhos nos parecem!
A angústia, a falta de amor , o medo, as contrariedades ou as nossas perdas
são jogados no nosso sonho, sem que
deles nos apercebamos.
Conta-me um pouco dos teus sonhos, e
eu te direi o que tens dentro de ti!
Viver em sociedade pode ser cruel para a nossa mente mais profunda, que não
reconhece as regras e os deveres a que nos temos que sujeitar. O sonho é a
forma mais pura de enfrentarmos os desejos da nossa mente sem qualquer censura.
Necessitamos sonhar para libertarmos todas as tensões que o dia-a-dia exerce
sobre a nossa mente. Se não sonhássemos, enlouqueceríamos rapidamente!
O sonho é assim uma espécie de “mente em férias”, é não ter horários a cumprir, não ter as
responsabilidades quotidianas da atividade profissional, não ter
condicionalismos a prender a nossa liberdade. Estar de férias é ter o prazer de
fazer o que gostamos e o que desejamos fazer. Quando sonhamos, embarcamos para
um recreio de férias!
No sonho não existe moralidade!
Para Freud, o sonho revela os impulsos involuntários que são reprimidos
durante o estado de vigília.
No sonho podemos roubar, assassinar, mentir, bater, etc., ou seja, muitas
vezes vemo-nos a fazer coisas num sonho que nos pode provocar o espanto, a
estranheza ou o repúdio ao lembrarmo-nos do que sonhámos.
Os limites da moralidade são
ultrapassados quando estamos a sonhar. Segundo Freud, quando sonhamos, nós
sucumbimos às nossas pulsões ou instintos mais profundos sem que a nossa
vontade possa exercer sobre algum controle.
Não sonhamos o que queremos!
Sonhar é muito mais do que um processo automático de fenómenos psíquicos.
Imaginemos que o leitor sonhou com ladrões e que estava apavorado porque não
conseguia libertar-se deles, nem tão pouco chamar a polícia. Ora, os sonhos revelam os nossos sentimentos reais,
como por exemplo, o medo (real) que sentia, porque na vida real tem medo de
ladrões. No entanto, os “ladrões” do seu sonho são ilusórios.
É a experiência acumulada enquanto estamos acordados que vai ser a matéria
que é apresentada no sonho.
Os conteúdos do sonho são pois reflexos das nossas experiências do
dia-a-dia, daquilo que ocupa a nossa
mente acordada, e daquilo que é objecto das nossas reflexões diurnas.
No entanto, na análise de um sonho podem encontrar-se elementos aparentemente acessórios
masque podem ser eles mesmos a causa do
sonho. Por exemplo, eu sonhei que os ladrões estavam a assaltar a livraria onde
eu me encontrava a comprar um livro.
A minha mente pode ter ido colocar os ladrões na livraria (na história do
sonho) e essa livraria pode ser um elemento importante na minha vida, como por
exemplo, ter sido numa livraria que eu encontrei recentemente um amigo de
infância.
O sonho vai, assim, juntar elementos que aparentemente possam não ter nada
entre si, mas um analista pode nele encontrar muitos elos de ligação, que farão
sentido para a pessoa que sonhou.
Porque sonhamos?
Vários autores defendem que o sonho vem colocar na superfície situações que
ficam “apagadas” ou “esquecidas” provenientes das experiências vividas durante
o dia. Começamos a sonhar com coisas só
quando elas ficam por resolver, podendo apresentar-se no sonho mascaradas de
outras coisas. Por exemplo, os recém casados, apaixonados, normalmente não
sonham com questões de amor em que o próprio casal está envolvido. Se sonham
com o amor é para serem infiéis com alguma pessoa de quem, aparentemente, nem
gostam...
O sonho pode representar uma
realização de um desejo evidente ou mascarado ou escondido.
O desejo pode ter sido despertado durante o dia e não poder ter sido
satisfeito por motivos exteriores ao indivíduo, passando-se, assim, para a noite sonhada a realização desse
desejo
O desejo pode tainda ser oriundo da vigília, e surgir no sonho como um
elemento que provém dos nossos impulsos recalcados.
Quando nos esquecemos do sonho
Quando o sonhador relata o seu sonho, depara-se frequentemente com dúvidas,
fragmentos de sonho bizarros e sem nexo, e à medida que o tempo passa após o
acordar, esse sonho vai sendo cada vez mais esquecido.
Os elementos mais débeis e vagos do sonho, muitas vezes fragmentos sem
ligação à narrativa, podem representar
elementos indesejáveis que emergiram no sonho e foram abafados pela mente do
sonhador. Para Freud, estes elementos que aparentemente se encontram vazios de
significado na lógica do sonho, podem ser
derivados diretos de pensamentos “proibidos”. O esquecimento dos sonhos
é uma manifestação da censura, a mesma censura que opera enquanto estamos
acordados, a viver no nosso quotidiano.